Air Celebration, La libération a toujours été là.

Sessão 01 - Meditação 03 - A memória

19/02/2014


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Vamos acomodar-nos, confortavelmente, para prosseguir nossa investigação...

Eu lhes proponho que se vá investigar, agora, ao nível do funcionamento da memória.
Mas, ao invés de colocar-se nas lembranças, eu lhes proponho começar agora, Aqui e Agora, tentando gravar, tentando integrar tudo o que acontece.
Para isso, vocês tenham, talvez, necessidade de ver o que acontece ao nível interior.
O que é que acontece no corpo?
O que é que acontece no exterior?
Ao nível dos sons?
Talvez, abrir os olhos, ao mesmo tempo permanecendo atento, tentar tomar todas as informações possíveis...
Voltar a fechá-los, se vocês estão prontos agora, tentar ver o que resta desse instante que acaba de passar... e ver que, por exemplo, tudo o que foi sentido no corpo, vocês não têm mais acesso a isso na lembrança, que vocês puderam ali colocar algumas informações factuais da organização da sala, mas que vocês não puderam integrar tudo.
Por exemplo, se eu lhes pergunto em qual ordem estão colocadas as pessoas na sala, ou as fotos na sala... vocês vão tentar recolocar-se no presente, porque estamos, ainda, ali.
Mas, no passado, vocês não têm mesmo, talvez, o vestígio disso.

Se eu lhes peço, agora, para dizer-me o que nós comemos, por exemplo, ontem à noite, vocês vão dar-me o nome dos alimentos, mas não poderão, em caso algum, trazer a sensação que tiveram, no momento em que comeram, o aroma que ali havia, se estava calmo, ruidoso, como vocês estavam naquele momento...

Portanto, pode-se, assim, indo cada vez mais ao passado, dar-se conta de que as lembranças são cada vez mais superficiais, e que, eventualmente, aquelas de que se lembra bem são, finalmente, aquelas que se conta mais.
E esse é um dado importante porque, se você toma uma lembrança de algo que tenha vivido de um pouco extraordinário, frequentemente, no momento em que o tenha vivido, você não procurou colocar palavras em cima.
E, em seguida, quando você o contou, você colocou palavras em cima e, talvez, palavras diferentes a cada vez que você o tenha contado.

E você pode observar, se encontrar a boa lembrança, que a lembrança que você tem corresponde, agora, à maneira pela qual você a conta, ou seja, que a lembrança foi modificada, pelo próprio fato de contá-la e as palavras que utiliza para contá-la.

Eu vou, igualmente, contar-lhes uma experiência que foi feita por cientistas, concernente aos sonhos, uma experiência que foi realizada junto a um grande número de pessoas, uma centena de pessoas ou mais, quando foram apresentadas fotos às pessoas, fotos de sua infância, todas verdadeiras, exceto uma, que era uma montagem delas quando crianças, em um lugar no qual elas jamais estiveram.
E, quando as fotos eram apresentadas às pessoas, quando do primeiro teste, há certo número de pessoas, muito pouco, que reconheceu essa pessoa e que disse: «Ah sim, eu me lembro, eu fui a tal lugar com tal e tal pessoa de minha família», e as outras não se lembravam.

Quinze dias após, o teste foi repetido e, em face dessa foto, a quase totalidade das pessoas lembrou-se, lembrando-se de ter estado nesse lugar e as circunstâncias que haviam levado a essa foto.

Isso significa, de fato, que nossa memória continua a informar-se, em função de elementos que a ela se aporta, em função do que se conta, em função do que outros nos contam.
Por exemplo, nossos pais podem contar-nos uma lembrança de infância, e acabamos por integrá-la como, efetivamente, algo de vivido, enquanto não se lembrava daquilo de início.

Pode-se, também, de maneira muito mais leve, olhar quantas vezes se esteve certo de colocar um objeto, por exemplo, as chaves do carro, as chaves da casa sobre tal mesa, em tal lugar...
«Isso é certo, alguém pegou minhas chaves!».
E, de fato, encontram-se as chaves no fundo do bolso, no fundo da bolsa, sobre outra mesa...
Tudo isso nos mostra que, de fato, a memória não tem confiabilidade alguma, que não se sabe se as lembranças que se tem são lembranças reais ou se são lembranças que foram criadas pelas histórias que se contaram, que transformaram a história.

Como para a história das chaves, pode ser, mesmo, que se invente alguns passados.
Em todo caso, não se pode constatar o conjunto dessas disfunções da memória e confiar na memória.

Aliás, é muito interessante, também, olhar, do ponto de vista da sociedade, como isso acontece.
Se você olha os eventos políticos, o conjunto do que acontece, há o que é comunicado pelas mídias, há, frequentemente, contradições, embora não se saiba, exatamente, o porquê e o como.

Vou tomar um exemplo para isso.
Eu me lembro de ter visto uma imagem, quando eu estava na Bósnia, de uma casa que queimava em Kosovo.
E, no canal de televisão France 2, o comentarista dizia que os Albaneses fugiram porque os Sérvios queimaram suas casas.
No canal TF1, eles diziam que os Sérvios retiraram-se e queimaram suas casas ao partir.
E, no canal LCI, foi dito que os Sérvios retiraram-se e que os Albaneses queimaram as casas.
Tudo isso com a mesma imagem da casa.

Em contrapartida, se olhamos os elementos do passado muito mais distante, por exemplo, como viviam os Romanos, o que aconteceu durante tal ou tal guerra, então, aí, a história parece muito, muito simples.
Não há mais do que uma única opinião, uma única versão, e todo mundo adere a ela.

Vê-se, efetivamente, no presente, que uma situação compreensível, simples, não existe, verdadeiramente.
Em contrapartida, que possam dizer-nos, exatamente, o que aconteceu há dois mil anos ou, mesmo, cem anos, de maneira muito clara, isso nos parece possível.
E essa é a magia da memória, a memória que simplifica tudo e que retém apenas uma versão, apenas uma parte do que aconteceu ou, mesmo, nada aconteceu, e uma pessoa começou a contar a história de algo que teria acontecido.
A história dessa pessoa ganha a adesão e ela se torna uma história oficial.

Então, se vocês estão no mesmo ponto que eu, naquele momento, não podem mais confiar na memória.
Vocês podem ver imagens passarem que corresponderiam à memória, mas não mais a elas dar crédito, porque vocês não sabem, em momento algum, se isso ou aquilo é verdadeiro.
Isso faz parte de uma história que é transportada, transformada, progressivamente e à medida do tempo.

Agora, se colocamos a memória de lado, se renunciamos a utilizar a memória, reconhecendo que a memória não tem confiabilidade alguma, é-lhes possível identificar o passado?
Obviamente, não...
E, aí, observa-se que a única coisa que nos faz aderir a uma noção de passado é algo que resulta completamente errôneo, e que se pode carregar, preencher à vontade, uma vez que basta fazer passar uma foto, pedindo-nos para lembrar-nos do que aconteceu naquele momento, quando se era criança, para que, no fim de certo tempo, tenha-se uma lembrança daquilo, enquanto isso jamais existiu.

Isso quer dizer que, se todas as lembranças tivessem sido colocadas, da mesma maneira, apenas agora, isso nos permitiria aderir a um passado que seria completamente fictício...

A não adesão à memória leva-nos, agora, a viver o não desenvolvimento no passado.
O simples fato de acolher o que vem na memória como algo sobre o que não se pode apoiar, que não nos concerne, dissolve, instantaneamente, o passado.

Vamos terminar aí nossa sessão de investigação de hoje.
Simplesmente, lembrar-se, aí, onde se chegou, se nós ali chegamos.
Eu não posso confiar em minha memória, e eu não sei, devido à não validade de minha memória, eu não tenho qualquer meio de verificar a validade do tempo.
Nós não chegamos ao «o tempo não existe», mas ao «eu não posso verificar a validade do tempo».


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