Air Celebration, La libération a toujours été là.

Sessão 02 – Meditação 02 – Os sentidos

18/03/2014


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Vamos retomar a investigação de onde estávamos ontem.
Ontem, paramos no fato de que existia uma espécie de contradição entre o que se percebia – como uma forma de matéria fixa, densa – e o que parecia dizer-nos a física atual, que tudo era, principalmente, constituído de espaço e de movimento.

Logicamente, isso nos leva, hoje, a colocar-nos a questão de nossos sentidos.
O que é que faz com que se veja ou que se sinta as coisas como sendo densas?
São nossos sentidos.
A questão que pode animar-nos, hoje, é: como funcionam nossos sentidos e pode-se confiar neles?
Será que é a ciência que se engana, será que são nossos sentidos que estão enganados?
De certa maneira, temos necessidade de aprofundar esse aspecto.

Então podemos, já, observar, rapidamente, sem entrar em coisas muito científicas: não há risco demais comigo!
Por exemplo, como funciona a visão?
Então, você sabe que a imagem que é captada chega sob a forma de impulso elétrico ao nível do mental, depois, ela é transformada e interpretada ao nível do mental.
É uma primeira coisa.

Há um caminho de informações entre o momento em que se vê e o momento em que isso é interpretado.
Isso leva alguns cientistas a dizer que, na infância, há toda uma etapa de aprendizado e de adequação do que é captado para colocá-lo em uma norma de percepção do mundo (entre o que é captado e o que é interpretado).
Durante a infância haveria, portanto, todo um trabalho de adequação.

Isso pode interpelar em relação ao que concerne à nossa pesquisa porque, se uma adequação é necessária entre o que é percebido e o que é interpretado é, portanto, que isso poderia ter sido interpretado diferentemente.
Será que se o mundo tivesse sido desenvolvido diferentemente pela sociedade e os adultos ao redor, será que – pode-se colocar essa questão – ele teria sido interpretado diferentemente?

Sabe-se, igualmente, que, ao nível da visão, capta-se apenas certa frequência em relação ao que é visto.
Sabe-se que algumas coisas que não se vê podem ser medidas com instrumentos.
É, simplesmente, porque nosso olhar varre apenas certa frequência.
Eu fui ver essa frequência, na Internet, ela seria entre 400 e 800 nanômetros.
Eu não sei, exatamente, o que isso significa, mas, de fato, isso mostra que não se vê o resto da frequência.
Não, unicamente, vê-se apenas uma parte do que é revelado (uma vez que se vê apenas certa frequência) e, além disso, interpreta-se ela).
Bom!

Outro elemento, sempre em relação à visão, é que, quando vamos ver um filme, de fato, um filme é constituído de imagens estáticas enviadas umas na sequência das outras.
À época do cinema mudo, havia dezoito imagens por segundo, para dar essa impressão de continuidade.
No momento em que o som foi acrescentado, eles foram levados a acrescentar um número de imagens, não para a imagem – vê-se muito bem com dezoito imagens por segundo – apenas para o som.
Eles aumentaram para vinte e quatro imagens por segundo, para poder haver um som contínuo.
O que quer dizer que, à priori, ter-se-ia necessidade de um pouco mais de informação para ter a impressão de uma continuidade ao nível do som.

O que é interessante, naquele momento, é que isso nos mostra que dezoito imagens por segundo bastam-nos para haver uma impressão de continuidade visual.
Logo no início das experiências em relação às imagens, havia aparelhos rudimentares (como um caleidoscópio) para projetar uma forma, por exemplo, um cavalo que corre.
Via-se o cavalo correr e, finalmente, não se via.
Poder-se-ia estar concentrado no momento em que nada havia, em que não havia luz.

E nós, o que é que vemos?
No momento em que há luz e em que há o cavalo que corre.
Isso quer dizer que nossa visão é capaz de fazer uma continuidade, então, mesmo que se saiba que entre cada imagem há o escuro (enfim, não há imagem que continua).

Então, será que se pode, assim, rejeitar a ideia de que o mundo desdobra-se a cada instante?
Será que se teria a possibilidade de ver, se o mundo desaparecesse e reaparecesse mais de vinte e quatro vezes por segundo?
Ao nível da visão, o cinema mostra-nos que não.
Ao nível da investigação, não estamos dizendo que o mundo desaparece vinte e quatro vezes por segundo, mas: será que se pode, a partir disso, abrir a possibilidade de que o que nos parece uma continuidade – percebida, notadamente, pela visão – não o seja, talvez?
Talvez seja e talvez não.

Com as informações que acabamos de receber, não se pode dizer que as coisas são contínuas, porque as vemos continuar.
Há, também, a noção de persistência da visão, mas não vamos entrar nisso.
Vocês podem fazer buscas, por si mesmos, sobre esse assunto.
Em todo caso, a visão não nos permite garantir que o tempo desenrola-se de maneira linear.
Poderia ser que, entre cada palavra pronunciada, cada movimento efetuado nesta sala, o mundo desaparecesse e reaparecesse e não se perceba isso.

Então, aí, eu lhes proponho tomar apenas alguns instantes – não para tentar compreender –, mas para perceber.
Será que seria possível, aí, que o mundo aparece e desaparece, de maneira espontânea, a cada instante?

Talvez vocês tenham lido livros que falam do caos.
O caos evoca esse aparecimento permanente...

Outra coisa que me interpelou sobre a visão.
Ela é definida como a parte visível da irradiação eletromagnética, na frequência que eu lhes dei há pouco: «Parte visível da irradiação eletromagnética», ou seja, o que é percebido não é, portanto, o objeto em si, é sua irradiação eletromagnética...

Não o faremos hoje, mas se houver necessidade de ir mais longe na investigação – em relação à visão e à diferença entre o fato de ver a matéria sólida, enquanto os cientistas dizem que ela é cheia de espaço e em movimento – poder-se-ia, também, aprofundar isso como uma pista de investigação suplementar: O que é a irradiação eletromagnética e o próprio fato de que há, já, um distanciamento entre o objeto que se percebe e o que se percebe do objeto, uma vez que é sua irradiação que se percebe?

Isso coloca, de qualquer forma, certo número de questões sobre o que se vê, e pode-se considerar que o que se vê é verdade? E que o que não se vê não existe?

Poder-se-ia fazer a investigação para cada sentido.
Para a audição, por exemplo, é a mesma coisa, porque, de fato, capta-se apenas uma frequência que é, além disso, diferente para cada um.
De acordo com experiências que foram realizadas, não há duas pessoas que ouvem a mesma coisa.
Então, para nós, que procuramos tranquilizar-nos com a opinião dos outros, para confirmar que se tem a mesma percepção, o mesmo ponto de vista: É, de qualquer forma, uma interpelação!
Se há três testemunhos de um mesmo evento que se ouve e há apenas uma história que emerge, isso significa, certamente, que uma história comum foi construída, mas que o que foi ouvido não foi a mesma coisa para cada uma das três pessoas...

Isso poderia, também, dar sentido a essa frase de um Mestre hindu, que dizia: «ninguém vive no mundo ou sobre esse mundo, cada um vive em seu mundo».
Já, se cada um percebe diferentemente, é um ponto de partida para dizer que não se vive, todos, no mesmo mundo...

Resta-nos o tato e o olfato.
Para o olfato, sabe-se muito bem que cada pessoa vai sentir diferentemente, mas, quando se toca algo, segura-se, está-se em contato.
Pareceria – de acordo com a física quântica – que, a cada vez que se toca alguém ou um objeto, na realidade, não se está em contato.
Há, sistematicamente, uma camada de espaço entre ambos.
Ah?
Mas tem-se, de qualquer forma, a sensação...

Da mesma maneira, será que se pode confiar no tato?
Pode-se, talvez, fazer uma pequena experiência concernente à sensação de frio.
Se você está em um lugar, em uma sala com uma parte em madeira e uma parte em ferro (temos isso aqui).
Se você toca a parte em madeira e a parte em ferro, terá a impressão de que a parte em ferro está mais fria do que a parte em madeira e, no entanto, ambas estão em uma sala com a mesma temperatura.
Isso se explica, simplesmente, pelo fato de que a sensação de frio não é ligada ao frio em si – à temperatura em si – mas ao fluxo térmico que existe entre seu corpo e o ar ambiente ou o que você toca.
A madeira é menos condutora do que o ferro, você tem a impressão de que o ferro está mais frio porque, de fato, há mais fluxo térmico que circula ao nível do ferro.

Poder-se-ia, é claro, continuar a aprofundar.
Aí, eu o faço muito rapidamente, simplesmente para levar questões em vocês, um movimento.
Uma vez que se tenha visto esses elementos, pode-se continuar a confiar em nossos sentidos para dar-nos uma informação confiável, dado que procuramos a verdade?
Não se quer uma informação aproximativa.
Pode-se dar crédito aos sentidos?

No mínimo, pode-se constatar que não é confiável 100%, que, finalmente, nesse nível, não se sabe o que é confiável ou não.

Mais uma vez, isso nos convida a pôr os sentidos de lado em nossa compreensão, em nossa busca da verdade.
Uma vez que se tenha visto isso, eu lhes proponho tentar, fechando os olhos, ver, deixar passar tudo o que vem ao nível dos sentidos.
Não vamos prender-nos ao que é ouvido, ao que é sentido, uma vez que não se pode apoiar em nada de tudo isso para buscar a verdade...

Então, naquele momento, o que resta?
Pode-se, talvez, dizer-se que resta-nos a Vibração, a sensação do Coração, por exemplo.
Mas como você a percebe?
Por uma sensação física ao nível do coração?...
Mesmo isso, deixa-se...

Todas as sensações vibratórias são ligadas às sensações físicas.
Naquele momento, vocês podem, talvez, perceber que o próprio fluxo de pensamentos desacelera...
Para alguns, ele poderia, eventualmente, acelerar, o mental poderia tentar encontrar uma maneira de fazer uma pirueta para esse mau passo.
Nesse caso, deixa-se e muito rapidamente...

Naquele momento, se você chega a não mais aderir aos sentidos, então, você pode, talvez, chegar a esse ponto no qual não há mais ninguém que experimenta.
Não há mais do que o observador... que está muito mais calmo – poder-se-ia dizer – que nada há a observar, se não é o vazio, o espaço...

Não queremos ir demasiado longe na meditação, para permanecer presente na investigação.
Assim que se tenha podido constatar os efeitos de «não mais aderir aos sentidos» pode-se, então, colocar-se essa questão: «Se os sentidos não são utilizados, o que resta do mundo?»...

Naquele momento nós podemos, talvez, perceber e viver – uma vez que acabamos de verificá-lo – o sentido do que é chamada: «a ilusão desse mundo».
Essa não é mais uma palavra ouvida...

Isso não é uma rejeição da ilusão desse mundo, é, simplesmente, o reconhecimento de que esse mundo emerge a partir da percepção de nossos sentidos...

Então, se cada um vive em seu mundo, o que acontece se um de nós deixa de aderir ao apelo dos sentidos?...
Aparece, simplesmente, ou melhor, desaparece, simplesmente, seu mundo.

De repente, isso nos leva, talvez, a essa questão: «Será que ‘o que eu sou’ vive em um mundo?»...
Será que o que eu sou – tendo, de momento, saído da ilusão – sente-se amputado de uma parte ou aliviado?...
Será que me é possível reabrir os sentidos, permanecendo fora da adesão ao mundo que se desdobra?
Reconhecendo, simplesmente, que não se pode – hoje – ter a mínima certeza quanto à existência desse mundo, uma vez que nós não temos certeza da confiabilidade dos sentidos?

É possível reabrir os olhos, ver reaparecer – não mais esse mundo, mas essa ilusão de um mundo – e não mais sentir-se concernido por esse mundo, simplesmente, espectador da ilusão, da mesma maneira que, quando você vai ao espetáculo de um mágico, você é espectador de seus truques de magia.

É possível permanecer em uma leveza?...

Vamos ficar aí por hoje.



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