Air Celebration, La libération a toujours été là.

Sessão 02 – Meditação 03 – Nem isso, nem aquilo

19/03/2014


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Hoje vamos, já, começar por remeter-nos ao que investigamos e sobre o que continuamos a apoiar-nos para a investigação.
Na investigação, é importante continuar a trazer de nossas investigações o que delas «extraímos», para que isso não seja guardado como uma crença em algum lugar, uma vez que, de fato, isso pode tomar certo tempo, antes de vir, verdadeiramente, liberar o espaço das crenças.
É, portanto, importante revisitar isso a cada vez.
Isso permite remover novas crenças, uma vez que, a cada vez, pode-se ir, cada vez mais, à profundidade.

Se, a um dado momento, você se encontra na situação de: «sim, eu sei», então, você sabe que você não está investigando.
Portanto, mesmo no que você chegou nas diferentes investigações – que puderam ver até agora – isso não é um saber, é, ao contrário, algo que se deixa tudo aberto.
Se, de repente, você encontra um saber: «sim, eu sei», é que o mental levou-o, provavelmente, um pouco rapidamente, a uma conclusão.
Portanto, «o que você sabe» é, agora, um muito bom assunto de investigação!

A primeira coisa que trazemos de nossas duas primeiras investigações é que não podíamos atestar que a matéria seja sólida, não podíamos atestar que ela é estática, mesmo se, quando se olha uma mesa – por exemplo – nós a vemos imóvel, tem-se a impressão de que seja algo que não se move.

Viu-se que, observando o que acontece ao nível da própria estrutura da madeira da mesa, havia o vazio, o espaço e o movimento.
Isso nos levou a investigar sobre os sentidos, e nós nos apercebemos ou revisitamos o fato de que nós não podíamos confiar nos sentidos.

Não se trata, aí, de refazer a investigação – pode-se voltar à investigação anterior, se se deseja –, mas, efetivamente, remeter-se onde estávamos colocados: os sentidos não são confiáveis e, finalmente, nós não podemos confiar nas informações que são recebidas ao nível dos sentidos para construir a verdade.

Obviamente, os sentidos são úteis para deslocar-se nesse mundo, mas nós vimos que, quando fazemos cessar os sentidos, quando cessamos toda adesão aos sentidos, então, o mundo não existia mais...
Estávamos aí.

Talvez, você tenha se colocado, em seguida, a questão: «mas então, será que isso significa que o mundo é criado pelos sentidos ou será que são os sentidos que percebem o mundo?»...
Porque, se os sentidos não estão em função, então, o mundo não existe mais...

Poder-se-ia dizer: «sim, mas os outros existem sim, durante esse tempo», mas viu-se que o conjunto do mundo desaparece, ali compreendidos os outros...
Isso pode, também, levar-nos a nos interrogar sobre nosso próprio corpo, uma vez que, como nós sentimos nosso próprio corpo, como nós o percebemos, em quais bases temos certeza de ter um corpo?...
Porque, quando os sentidos não estão mais em função, quando o mundo desaparece, meu corpo desaparece, igualmente...

E, apesar de desaparecer o corpo, a noção de: «eu existo», de: «eu sou» continua presente...
Isso nos leva – de uma maneira diferente em relação ao que havia sido vivido quando do encontro anterior – a constatar, numa simples passada d’olhos, que nós não temos certeza de que o corpo existe, mas, o que quer que seja, a noção de «eu existo» continua a estar presente.
A noção de «eu existo» mostra-nos que ela não é ligada à presença do corpo...

Constatou-se ontem – notadamente a propósito da visão – que os sentidos eram interpretados pelo mental, e que era necessário um aprendizado para poder catalogar os sentidos e organizá-los em um conceito.
Ontem, nós não utilizamos a palavra conceito, mas estudamos o desenrolar da visão, que é percebida e que é interpretada com essa noção de que as crianças construiriam o próprio mundo, tentando colocá-lo nas normas, em função do que elas percebem do mundo.
Isso pode ser ilustrado, facilmente, por algumas noções que não existem em outras culturas.
Por exemplo, em algumas culturas, há apenas uma única palavra para significar tudo o que aconteceu, e uma única palavra para significar tudo o que é futuro.
Não há toda essa noção do tempo: em uma hora, esta noite, amanhã, em um mês, em dois meses.
Tudo isso é uma noção que algumas culturas não têm.

Obviamente, em nossa sociedade, isso pode levar-nos a dizer que, simplesmente, esses povos – aliás, chamam-nos os povos primitivos – não se perdem no tempo e, portanto, não têm necessidade de ter tantos marcadores como esse, no tempo.

Portanto, nosso mental vai recuperar informações do que é captado ao nível dos sentidos, o que é fornecido ao nível dos conceitos da sociedade para criar seus próprios conceitos.

Eu tomarei um pequeno exemplo pessoal de meu filho que, desde que lhe disseram que íamos mudar para a Espanha, não para de nos colocar a questão: «É onde a Espanha?» e: «é o que a Espanha?».
Então, quando eu lhe disse que era aqui... por que aí, onde há casas e o campo e estradas é a Espanha, enquanto, antes, onde havia casas, não tinha nome; por que pôr um nome França de um lado e um nome Espanha do outro?

Portanto, vê-se, efetivamente, como o mental tenta compreender e pôr um conceito em algo, trazendo a questão, sem parar, para tentar daí fazer a volta e poder pôr um conceito...

Então, se os pensamentos são ligados aos sentidos (e viu-se que não se podia confiar nos sentidos), podemos confiar nos pensamentos?

Não se pode, sempre, dizer sim ou não, uma vez que não se podia dizer: «não se pode confiar nos sentidos ou não».
Portanto, não se pode dizer, aí, não se pode confiar nos pensamentos.
Em todos os casos, confiar neles, à priori, não parece possível, tampouco...

E, se os pensamentos são ligados aos sentidos e ao corpo, como se viu que o corpo não era o que nós éramos, os pensamentos podem ser o que se é?
Tampouco...

Eu os lembro de que, quando do primeiro encontro, havíamos visto – à parte os medos primários – que as emoções eram geradas por pensamentos.
Portanto, se nós não somos nossos pensamentos, não podemos, tampouco, ser nossas emoções.

Se eu recapitulo de onde estamos: sabemos que nós não somos esse corpo, que não somos nossos pensamentos, que não somos nossas emoções...

Nós continuamos sem saber o que nós somos, nós não sabemos se o mundo existe e não sabemos, mesmo, se nosso corpo existe...
Então, em relação à investigação, pode haver, naquele momento, duas reações, duas ações possíveis em face dessa destituição progressiva: ou o mental apaga-se, suavemente, e a paz instala-se, ou, ao contrário, o mental ativa-se porque, de certa maneira, ele se diz que é o fim de seu reino e, portanto, que é preciso defendê-lo.

Ora, defender esse corpo faz parte das atribuições do mental.
Nós não podemos, portanto, acusar o mental quando ele funciona de acordo com seu próprio programa.
Nós não sabemos se o corpo existe, mas, em contrapartida, o que sabemos é que, no que se manifesta – o que quer que se manifeste – o papel do mental é o de proteger o que se manifesta, instaurando estratégias para evitar os perigos, para colocar-se em segurança e tentando colocar-nos em algo que poderia parecer lógico para que se continue a manter o corpo em vida, e a experiência...

Pode-se, portanto, deixar o mental continuar sua função, o corpo, igualmente – o que quer que seja – e continuar a investigação, deixando as tensões – que podem apresentar-se – onde elas estão.
Isso quer dizer que, se o mental põe-se na resistência, nós podemos, simplesmente, lembrar-nos – e, portanto, lembrar ao mental – de que a única coisa que procuramos é a verdade... e é um funcionamento coerente, lógico: coisa que o mental pode apenas desejar, uma vez que o mental é persuadido de ser lógico e, talvez, ele o seja...

Então, se nada somos do mental, das emoções, do corpo, o que resta, que esteja, ainda, presente, mesmo quando paramos de deixar os sentidos em função?
Mesmo quando nós paramos o mundo, há, sempre, a noção de: «eu existo» que está aí...

Então, quem é ela?...

Eu lhes proponho, em seu dia de silêncio, observar quem está aí...

Então, quem são vocês, agora que o corpo, o mental e as emoções são soltos?

Continuaremos amanhã.

 
 
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