Air Celebration, La libération a toujours été là.

Crer ou viver - 10:16 (21/02/2014)



    
 

Questão: Essa questão concerne à investigação (ndr: ver no site a rubrica «Meditação e investigação» – Sessão 01).
Raciocinar com o mental e dizer que eu não sou esse corpo foi fácil demais porque, de fato, eu tinha a impressão, de modo inato, de que esse corpo sempre foi um veículo para fazer experiências nesse mundo: Isso não é um engodo do mental? Se sim, como proceder a uma contra-investigação?


Air: Você pensa, de maneira inata, que você não é esse corpo?

Q.: Sim, eu sempre o tomei por um veículo...

Air: Mas quem o tomou por um veículo?

Q.: Eu não sei... quando eu encarnei, isso sempre foi um sentir, assim...

Air: Sim, mas a um dado momento, coloque-se, sempre, a questão: «Quem?», e encontre-o.
Porque, se eu não sou esse corpo... primeira indicação: nós vimos, juntos, que, se não havia o pensamento «eu sou esse corpo», o fluxo de pensamentos para ou desacelera (ndr: referência à meditação investigação 1 «O corpo», que vocês encontrarão nesse site, na rubrica «Meditação e investigação» - Sessão 1).
Portanto, se seu mental está presente de maneira importante, então, você sabe que o fato que: «esse corpo é um veículo» e: «eu não sou esse corpo» é uma crença, mas não uma vivência.
Porque, se fosse uma vivência, então, o fluxo de pensamentos desaceleraria, ao menos de maneira consistente.
Isso quer dizer que seu mental crê, ao mesmo tempo, que você não é esse corpo e que esse corpo é um veículo, mas, ao mesmo tempo, ele o faz viver: «eu sou esse corpo».
É toda a diferença entre as crenças que não têm qualquer peso (a não ser alimentar o mental) e o que é vivido.

Saber que não se é esse corpo não é viver que não se é esse corpo.
E, aí, se, na investigação, esclarecemos, suficientemente, o fato de que nós não éramos esse corpo, pode-se, então, apoiar-se nisso a cada vez que o mental age como se fôssemos esse corpo.
Por exemplo, se dizemos: «ah! Eu tenho um mental poderoso» ou «ah! Eu tenho fome», como «o que eu sou» pode ter fome, se eu não sou esse corpo?
Eu posso viver com a consciência nesse corpo que: «há uma sensação chamada fome», ainda é preciso descrevê-la, tentar ver o que ela significa, mas eu posso viver: «pareceria que a sensação física vivida nesse corpo significa que esse corpo tem fome».
Depois, poder-se-ia, também, descobrir que a noção: «eu tenho fome, eu estou cansado» é, simplesmente, apenas um hábito.

Não basta utilizar as palavras (algumas pessoas são muito fortes para não utilizar as palavras) e dizer: «esse corpo está cansado».
Dizer: «esse corpo está cansado» não quer dizer que eu vivo o fato de que eu não sou esse corpo.

Eu compreendi o conceito de: «eu não sou esse corpo» e eu o aplico com o mental, utilizando de frases que vão, efetivamente, mostrar que eu compreendi que eu não era esse corpo.
Mas aquele que vive que ele não é esse corpo não se importa de utilizar esse «eu» ou não, uma vez que o «eu» não tem mais consistência.

Um exemplo: quando falava de si, Krishnamurti utilizava o termo: «o orador».
Ele dizia: «não escutem o que o orador diz a vocês».
Mas era, simplesmente, para criar um eletrochoque para as pessoas que estavam à frente.
Para ele, dizer não escutem o que eu lhes digo ou não escutem o que o orador diz a vocês nada mudava, porque ele sabia muito bem que o «eu» e «o orador» são a mesma coisa: um conceito que ele não é.
Ele não é mais o orador do que o eu.
E, com a prática da investigação e da refutação pode-se, a um dado momento, ter tendência a entrar em piruetas do mental que nos fazem crer que se está instalado, simplesmente, porque não se utiliza a palavra: «eu».
Falar de si na terceira pessoa não faz de você um liberado vivo.

É preciso, portanto, prestar atenção na maneira pela qual o mental recupera a investigação porque, uma vez que ele tenha vivido o fato de: «eu não sou esse corpo», você deve obrigá-lo à coerência.
A investigação é o ponto de partida.
Não é a investigação que libera, é o fato de que ela o leva a viver, sabendo o que não é a verdade, e você sabe que: «eu sou esse corpo» não é a verdade, porque você o constatou, por si mesmo.
Você o reconheceu.
O que quer dizer que, a cada vez que se manifesta uma maneira de colar-se ao nível da pessoa e de colocar-se no «eu sou esse corpo», qualquer que seja a maneira, trata-se apenas de não dizer: «Droga! Eu estou, ainda, no fato de colar» ou «ah! Eu não conseguirei, jamais», porque tudo isso é a encenação do mental para evitar a única verdadeira posição que é: «OK, eu ainda estou colado, querido mental, poderíamos demonstrar um pouco de coerência? Se você sabe que eu não sou esse corpo, e você sabe disso, se você tem certeza de ser coerente, o que nós ainda não demonstramos, se você tem certeza de ser coerente, então, por que essa incoerência de saber que eu não sou esse corpo, ao mesmo tempo fazendo-me viver que eu sou esse corpo?» (ndr: no momento em que a questão é colocada, a parte da investigação que interroga o mental sobre sua coerência não havia, ainda, sido abordada – ver a rubrica Meditação e investigação no site, Sessão 1, investigação 4, O Mental).

O que é pedido ao mental é demonstrar coerência.
Então, obviamente, apesar do fato de fazer a investigação, ele pode, ainda, depois, levá-lo à incoerência, uma vez que você está na incoerência desde sempre.
O fato de que você não seja esse corpo não data de hoje, portanto, você ali está desde sempre.

A incoerência é um hábito, e todos os hábitos que acompanham (crer-se de tal ou tal nacionalidade), mas, se eu não sou esse corpo, como posso ser francês?
Se eu não sou esse corpo, eu sou o pai de meus filhos físicos, por exemplo, nesse mundo?
Eu posso ter filhos, reconhecer que esse corpo de carne tem uma paternidade vis-à-vis os corpos de carne dos filhos, mas é tudo.
Será que isso impede de viver relações de amor com seus filhos?
É claro que não!
O amor não vem do fato de que eu sou esse corpo amoroso, outro corpo.
Isso, portanto, nada retira do amor, ao contrário, isso o desdobra porque, naquele momento, o que é reconhecida é a verdade.
Então, eu não gosto de um mito que seria ligado a esse filho que é o meu, eu vivo o reencontro, na verdade, de duas manifestações do Um.



Proposto por Air.
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